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querida Vitória,

 

estou de volta aos seus braços secos, atravessando as suas ruas cada vez mais longas e planas, houve um tempo que brincávamos de roda e nos pintávamos com urucum, não sei o que sinto além do que penso sobre o eterno retorno que não quero admitir, já te abandonei outras vezes e voltei para ti, como uma filha bastarda que não finge te amar, nada na vida conseguiu me reter senão o vínculo você me encabresta, você me parece tão burguesa, evangélica e pálida, você me conta as histórias que eu gostaria de esquecer, me olha como se pudesse saber quem sou, como se conhecesse o meu passado vadio, é sempre a mesma labuta contra o mercado imobiliário que você me impõe, crescendo em cubos verticais, vangloriando-se de um suposto desenvolvimento que não creio, não, não creio, é a mesma elite que te guarda, os genocidas que te batizaram o nome, não, não me calo, teremos que nos engolir uma a outra e vou te morder, querida, não sou diplomata, você não me traz perspectiva alguma senão a solidão e a burocracia do trabalho, sim, você me deu amigos e eles me beijam a face, há também os que me odeiam e os que me tomam por louca, não, não te odeio, sou apenas uma hóspede ingrata, vou reverenciar o seu crepúsculo dourado, caminharei por entre o vazio dos seus bosques de eucalipto e flores ornamentais, você não sabe o que é rio, nem mar, nem floresta, nem carnaval, você me seduz com a poesia, o cinema e a ópera, você é uma sertaneja erudita, gosto da sua diferença, Vitória, você não se faz refém do Estado, mas venho do samba e dos orixás, como aquecer o seu corpo frio?