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lá fora, a noite se parte dentro de mim…

– da correspondência entre Caio Resende e querino
São Paulo, 4 de junho de 2013

Então escrevo, malungo, para que eu mesmo possa retornar ao lugar de nossa última conversa. De imediato, fica-me óbvia certa falta de jeito, que, contudo, entendo comum a todo movimento inaugural – e isso é uma paz. Como você bem sabe, viemos a muito lidando com isso a que chamamos nossa escrita ou interstício, nossa vida; e é tudo sobre isso, a vibe de cada dia, o estofo de nossos pulmões: o que vai morrer no dia seguinte ao do bojo, ou que vai nascer, o que vai ser dessa miríade de gestos falidos pela eterna madrugada de nossas vidas?

Foi, dessa pergunta, que me encontrei – sem frescor –, novamente sem resposta. Vez mais, diante de um silêncio que por tantas vezes obrigou-me amante de tantas torrentes. Sempre à beira. E seria esse o meu círculo vicioso, não fosse a breve transmutação dos dias, esse grau de morte que me surge insuspeitado no cerne de cada coisa, e que ora posso ter como uma nova disposição a tudo que me circunda em inserts diários de cotidiano. De outro modo, posso dizer que o que me impele à escrita não passa apenas, ou não necessariamente, pela dose-a-mais-de-qualquer-coisa

………………………………………(poesia, pedra na vidraça|
………………………………………………………………………………|poesia, poro dilatado)

………, que durante tanto tempo foi sentida em mim como único veio; assim, esse “jeito”, que aqui vou entender como minha constante procura por qualquer centelha inédita de realidade, por outra pele, outro isso ou aquilo que me deflagrasse uma nova experiência escritural e que me fizesse deslocar de uma suposta fixidez – e eis aqui a nascente do jorro que me levava sempre às imagens mais fortes – se fez uma constante. Ao longo de anos, experimentei: fui o que pude. Fiz-me Caio para essas coisas tantas de que já falamos. E, por este ponto, me bastava a essas intensidades. Eu era e queria o jorro. Por entre conversas destiladas e entre esquinas e doses de conhaque, eu, meu caro, esculpi os estranhos rastros de tudo que vivemos. Por entre asfalto e crepúsculos, entre conversas e esquecimento sobre qualquer coisa, o mundo se despia do mundo, as tardes sediam ao breve torpor de cigarros ou jazz ou vinho. O mundo inteiro era tudo aquilo que vivemos. A escrita, num intermezzo de caminhos, este estradar, esse ir até quando que continuava a me lançar ao coro das ruas… a escrita, meu caro, a minha escrita, mesmo ali, ainda que de forma molecular e insipiente, já continha estranhas partículas de um certo Silêncio, duma estranha viração de tudo, deste estranho rio de tudo, que aos poucos ganhava força em minhas buscas

O cavalo sangra
à noite de absinto
Com os meus olhos encharcados
o que vejo é nada
E nado no mar de nossas veias
nado no mar de nossas veias
à correnteza de um passado que só é
pois todo passado é como um nó
em nossas veias:

Aqui agora

O cavalo sangra
à noite de absinto
E nunca seremos piedosos
A noite é o mar em nossas veias
Nunca seremos piedosos
A noite é o nó de nossas veias

Ou ainda…

…….Como num vago corpo de memória, deslizamos os nossos dedos,
……. a saber o que não era, pelo hirtos do amor,
……. e pressentimos a vulva amada como, ao calor, uma tarde de verão…

Hoje, gaguejante e trôpego, procuro um novo traçado que seja capaz de restituir até mesmo essa alardeada “mesmice” de todas as coisas e todos os dias. Não mais buscando a beira por meio apenas da intensidade, o que insurge em minha escrita é este marulhar, rio, este Silêncio.

Não, não o silêncio que é vazio ou cheio de vozes e sentidos. Não o silêncio dos que calam ou morrem, tampouco o silêncio dos automóveis, dos ruídos e clarões e latidos da noite. De modo algum era a esse silêncio que buscava. O que gritava em mim era uma mansa viração que atravessava os corpos e que, sem aparentemente tocá-los, os fazia sempre diversos e mesmos. Um todo aberto e eterno, que fazia a vida passar num ir e vir sempre perdido de destino. Sob a constante permanência dos corpos e ao fogo da eterna mudança.

Assim, quando encontrei a manhã exposta,
por entre as estrofes do mundo, sangrei
o mistério da minha alma. Fora de mim,
contei a mim mesmo mil vezes a mesma história
e ela era sempre outra…

Tinha já, a essa altura, uma lestada inédita a deslocar-me. Não queria apenas crivar o corpo de tudo que pudesse, não queria jogar ao fogo a última brasa de desejo pela simples possibilidade de fazê-lo. Então diferente, quis acossar o silêncio de cada ato, atirar fora a exumação consciente dos dias e ter-me junto de cada gesto, estando, ao mesmo passo, fora de cada deles. Foi nessa vira-volta que me deparei com nossa eterna madrugada: este Silêncio que então me sobrepujava qualquer direção prescrita ou qualquer expectativa a cerca da experiência escritural, revelou-se-me através de uma nova imagem, a do ritual. Não me preocupava a pura intensidade do instante, mas sim o ponto de toque entre este e o já vivido. A escrita como ritualística das experiências da vida trouxe-me o sensível como superfície de inscriação dos afetos, ritual que traz consigo este Silêncio que ora pude entender como uma nova experiência do tempo, em que corpo e sensibilidade, inseparáveis que são, jorram para dentro e para fora de cada encontro.

Tão logo pude me deparar com essa tessitura, vim a perceber que o mundo como que se dobrava sob minha pele e que, na mesma medida, eu o crivava de cada gole, de cada vida até ali inventada. A Poesia não era mais o mesmo salto no escuro, e embora conservasse o seu princípio de sombra, o ato da vida crescia com suas ramas até tornar-se parte inseparável de mim, tal uma nota que se acrescesse a melodia fazendo-a ressoarnumanova canção que, apesar disso, é ainda a mesma.

Como quem vai pela chuva até tornar-se parte dela, quis penetrar sua câmara secreta, ancorar sua bílis primordial num hiato de olhos urticado pelo sopro de um primeiro pulmão:eu, sombra esguia estirada no limbo, tive, desse Silêncio, de novo e de novo, a primeira infância do gesto, sou aquele que olhou o deserto e que em sua eternidade ainda olha. Sou um espelho, um eco. O epitáfio.Fora de mim, o caos que cresce por toda direção, matilha de luzes primordiais uivando o pó da eternidade. Dentro de mim, a primeira manhã, o primeiro menino a esculpir neste cais de flores se abrindo a derradeira miragem de um parco verão. Desse Silêncio, dessa nova experiência do tempo sou a constante presença do que nunca ficou

Lara
Este silêncio vertigem que se esgueira pela noite
matraqueado de passos
corredor adentro onde corvos balançam
e ausentes
antigos gestos no espelho
se confrontam

Este silêncio que se arrasta de halos
que verte inalterado o seu busto de sombra

(este exíguo grão da puberdade
que anima a hóstia de um sonho)
Tal presença orbitada de soslaio
este silêncio que é a última parte
que se rodeia de aldeias e de poços
despindo a brônzea fuligem de tudo

que se escorre mitigado
se expande na loucura
que se despe dos trópicos
em longas torrentes de absinto
Ó, este meu silêncio
, que não sabe maldizer o que tivemos
que se vive
que se perde como triste ilha
de tesouro
que é cigarro, pão & guerra
onde Putas vão vender o seu delírio
onde Padres sequelam juízos
e acasos vão morrer no mesmo cais
onde Narciso é a pata do que vejo
onde Pollock jorra sangue sobre a tela
, e meninas
se dedilham com poemas
esperando da noite uma vontade qualquer

Este silêncio meu
infante desapego
que se me ergue feito mantra pelas ruas
e não reconhece a distância
entre os pontos

(qual certeza qual fuga ou a têmpora banhada de suor!)
que se arrasta pelas ruas pouco mais
para retomar toda vertigem no breve tempo
em que me perco dos cabelos
quando a tarde já é nua
, amena
e a dor tão mais pequena se aquece de desejo
Ah, este silêncio
que se abre em mil feixes
que desaloja
incessante
essa astúcia de grilo pela noite
esse baque de porta pela noite
esses mil fantasmas de homem pela noite
e que se escorre sem destino pelo ventre
carcomido de uma estrela