essa noite nunca existiu, II

parte I | parte II

II

Certa feita, junto a Edgard Neto, escrevi um poema. Estávamos na casa de Morgana (mais uma vez esses olhos):

………………………………………………………………………………………Esses telhados que nos inundam a vista
………………………………………………………………………………………fazendo crer em tudo o que é dito
………………………………………………………………………………………através desses olhos
…………………………………………………………………………………………..que a noite esculpiu;
………………………………………………………………………………………eu não teria muito o que fazer –
………………………………………………………………………………………haverá para sempre esses belos olhos para a noite
………………………………………………………………………………………a mão estendida …..o que se faz
………………………………………………………………………………………quando ninguém mais vê
………………………………………………………………………………………o que talvez seja apenas isso
………………………………………………………………………………………café posto à mesa
………………………………………………………………………………………uns versos escritos
…………………………………………………………………………………………na expectativa do que sucede
………………………………………………………………………………………as luzes acesas
………………………………………………………………………………………canção
………………………………………………………………………………………uns passos que –
………………………………………………………………(todo rastro é uma sedução definitiva, ou Rituais – tertúlia,
………………………………………………………………edgard neto, querino)

Este poema, a cena descrita, é quase literal: estávamos lá, com essa conversa sobre rituais, parecia que um grande poema pirotécnico seria escrito, quando, pensa que não, Morgana acende umas luzes diferentes, nos faz um café, bota ‘novos baianos’ pra tocar; ouvíamos seus passos pela casa, calmos. Está tudo certo, pareciam dizer, é apenas isso. Dias depois, me rendi. Tentei continuar o poema, mas não deu certo, não batia vibe alguma senão a presença daquela noite, e a presença me era revelada ali, através daquelas palavras mal escritas dispostas em um pedaço de papel. Apenas transcrevi o poema do rascunho e depois mostrei a Edgard. Dei por encerrado o Cadenza – volume de poemas que escrevi, alguns sendo escritos não apenas por mim, durante esse tempo de candeeirocafe, dividido em 05 séries (03 disponíveis online, via candeeirocafe editorial: sobre quantos cafés desperdiçamos, In a silent way, tertúlia). Era isso mesmo, mas o quê?

Há um poema de Cláudio Willer que repete várias vezes a palavra presença. Dias circulares, o título, e está em um livro de mesmo nome. Esse poema saltou em alguma leitura na praça (da pedra) e, certamente, deu as bases para o conceito de Presença que foi compartilhado, rebatendo em tantas de nossas conversas e de nossos escritos. O que esse conceito diz não é bem certo, mas há alguma suspeita no poema, uns versos que destaco: “Tua presença é monstruosamente reveladora, e sei que devo continuar a existir imerso em sua transparência”; “O mistério transborda, transforma-se em enxurrada, apaga o rastro e arrasta consigo os fragmentos dos meus ossos”; “Os prédios de gelatina confundem-se com o horizonte e atraem meus passos para o indecifrável, para a quantidade de enigma presente no teu olhar, e que escorre pelas mãos, invadindo o ar que respiro”; “Estou envolvido e emaranhado pelo amor, todo ar que respiro está contaminado pela Presença, golfadas de pressentimento fazem com que eu perca o pé constantemente, chamas negras e vorazes roem as bases do universo”. Poderia reproduzir todo o poema, mas acrescentaria muito pouco a uma tentativa de traços exatos à questão, por isso, o transcrito basta.
Talvez a recorrência da palavra em nosso convívio junto a algum prazer durante aquela primeira leitura desse poema de Willer tornou mais fácil entender o lugar que tateávamos. Estar na praça toda quintafeira à noite, quando tudo o mais nos seria possível e preferíamos estar ali, era uma espécie de ritual. Da praça, recém reformada quando começamos a freqüentar o lugar, tínhamos uma bela vista da cidade – não seu território por completo, mas uma grande vista: era o terminal de ônibus logo abaixo, após a feira; a saída leste; os carros passando ao longe pelo anel viário; o cristo rendido acima; as ruas próximas que davam no centro comercial; bares, quiosques, puteiro, igrejas; um grande hospital, também algumas funerárias; todo tipo de gente passando. A praça é sim um ponto de convergência, ponto vélico e, não sei por que, é forte a impressão de que ali é via obrigatória para todos os rumores, vindos de todos os lados. A Presença era demasiada e, é possível dizer, escrever poemas tornou-se um grande ritual de celebração a isso.
Logo, outros lugares foram descobertos, à medida que nos colocávamos à deriva: o teatro de nossas leituras, a lagoa das bateias, uma rua só a volta na imediação da avenida que leva à universidade em que todos chegamos a freqüentar por algum momento, o telhado e a varanda de um certo prédio no centro da cidade, a sala de estar de uma outra casa, um apartamento já mencionado neste ensaio etc etc.
Logo, bastou estar disponível.

Mircea Eliade diz: “As imagens, os símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psique; elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as mais secretas modalidades do ser”. Antes, ele ainda diz: “O símbolo revela certos aspectos da realidade – os mais profundos – que desafiam qualquer outro meio de conhecimento” (em Simbolismo e psicanálise, tópico no prefácio em Imagens e símbolos). Que alquimia estranha essa, então, de identificar através dos fatos do cotidiano uma extra-realidade, mais real que esta a qual somos acostumados a acreditar ser a única! Quero dizer, como é possível alcançar, mesmo que de relance, esse outro lado, através do que está, a priori, fechado em si como objeto dado, sem revelações, por conta de ser apenas o que aparenta, apenas ao alcance de nossos sentidos primários, sem consciência? Como essa Presença salta de umas palavras na maioria das vezes mal escritas num pedaço de papel, após terem sido postas lá num êxtase que seja ou quem sabe? Não sei se é resposta, mas Caio Resende diz algo numa carta endereçada a Edgard Neto, por conta de umas besteiras; da parte que pode interessar a todos, ele vai destrinchando a questão:

todo acontecimento é uma mão estendida diante de mim. é a isso que a minha poesia serve, é ela também uma mão estendida, uma janela, uma abertura, mais ainda: doses de conhaque apitando no estômago da sobriedade. eis a maior forma da minha ocupação: abrir frestas onde antes tudo era lei.

a carta publicada

(e mais uma vez é claramente posto o fato da escrita não ser senão um meio, e de trago forte ainda). Ele continua:

os meus poemas não são meros recortes de uma realidade-objeto, não são um relato, ao contrário disso, eles fluem e se firmam num fluxo subjetivo de imagens, cheiros, ruídos, gostos, tons e sensações que, embora tenham total concordança com a experiência-gatilho da realidade-objeto que se gerou, tendem à desapropriação dos elementos de uma experiência. isso implica em dizer que os objetos e fatos do que chamo de memória-cena e até mesmo a realidade-objeto se mostram depois e se misturam em vibrações quasesútis que vão sendo delineadas a cada estrofe ou a cada verso. dessa forma, os mitos de um poema se misturam, se atravessam e se intensificam a ponto de, nesse trânsito, quase perderem a própria designação de seus nomes.

É fato que não se passa despercebido pelo cotidiano. De alguma maneira, muito mais do que imaginamos, senão tudo à nossa volta, enquanto estivermos em contato do jeito que for (qual a extensão do alcance?), é registrado. Mas, através de minha relação com a escrita, suponho que a chamada identidade, sem qualquer julgamento, não é mais que uma reação a esse imerso intermezzo em que somos. É também uma visão de fora, tentando minimizar o impacto do encontro, encapsular a possibilidade. Através da arte, o espelho se quebra: “caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. Há um belo poema que talvez coloque melhor a questão:

…………………………………………………………………….Ando no chão tatuado de vinho, na esfinge da rua do estampido.
…………………………………………………………………….Escala que se martela de assobio, estampado à boca rubra
…………………………………………………………………….na intensidade de um milhão de hipérboles
…………………………………………………………………….(são todas células trêmulas repelindo gostos,
…………………………………………………………………….calafrios da recém-primavera na língua).

…………………………………………………………………….Besouros disputam nossos ouvidos.

…………………………………………………………………….Vozes de cetim deslizante,
…………………………………………………………………….aveludadas, rebatem na fronte –
…………………………………………………………………….porque o tempo não é esse,
…………………………………………………………………….as teclas não são essas.

…………………………………………………………………….Repito: estamos beirando e seremos
…………………………………………………………………….mutilando os nossos braços,
…………………………………………………………………….expelindo versos,
…………………………………………………………………….mastigando lares;

…………………………………………………………………….o que ficou, o que deveria ter ficado
…………………………………………………………………….é substância, idéia e substância de alguma quase canção –
…………………………………………………………………….Pulo de vozes falando de como é fácil
…………………………………………………………………….ser besouro em uma dança estranha
…………………………………………………………………….e abalar as estruturas da veia mais corrente!
…………………………………………………………………….mas a música sempre volta,
…………………………………………………………………….sempre volta.

…………………………………………………………………….(uma varanda observa com nuvem e um multicolorido
…………………………………………………………………….de guitarra e mulher:
………………………………………………………………………….. dance!)

…………………………………………………………………….Há entre os dedos a felicidade das asas que vão além
…………………………………………………………………….e não há choro. Choro
…………………………………………………………………….choro
………………………………………………………………………. pra ninguém.

…………………………………………………………………….(tocando de estrela)

…………………………………………………………………….E ela vai saindo pela porta,
………………………………………………………………………… ela vai voando e não volta:
……………………………………………………………………… ela vai entrando para fora da porta.
………………………………………………………………(tocando de estrela (ou Ela vai entrando para fora da porta – o outro lado da chuva,
………………………………………………………………caio resende, ian c.lima, pablo luz)

Dizer que o poema foi escrito na varanda do apartamento onde Ian C.lima morava, no meio de uma baderna como sempre houve ali, como foi de fato, mas eu não estava e apenas imagino a cena porque ouvi histórias depois, ou numa outra noite feito aquela em que uma coruja branca voou até nós, e nesse instante eu estava lá e não havia mais que três pessoas e um tinto compartilhado durante a conversa e aquilo caiu feito revelação em um outro poema, é tão relevante quanto o que pode haver de realidade, não no sentido histórico, mas no que o poema mesmo diz, e para além da razão? – Octavio Paz diz, em O arco e a lira: “nem todos os mitos são poemas, mas todo poema é mito. Como no mito, o tempo cotidiano sofre uma transmutação no poema: deixa de ser sucessão homogênea e vazia para se converter em ritmo. (…). O tempo do poema é distinto do tempo cronométrico“. É preciso perder as estribeiras um pouco para compreender melhor o que passa.

O poema é uma mão estendida, de maneira que sua ação é realizada apenas no encontro. Seria o caso, então, de rever alguns parâmetros – rima, métrica, forma etc? Certamente, à medida em que a imposição dessas estruturas se mostrar mais como uma barreira política do que, propriamente, uma questão de uso da norma ou, em outra palavra, etiqueta. É preciso estar disponível para encarar um poema, ou o que seja. Nunca se sabe o que vem lá. É preciso diálogo.

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