essa noite nunca existiu, I

parte I | parte II

I

Uma outra realidade é possível, foi o que se tornou perceptível até por demais a partir daqueles encontros mais ou menos entre 2010 e 2011. Estávamos em vitória da conquista – BA, e começamos a freqüentar a praça da pedra, com leituras e conversas sobre o que quer que seja. Essa praça é um resumo da cidade, ou é possível ter uma vista geral: num mesmo lugar tinha uma igreja, um hospital, uma funerária, um bar, um putero, quiosques, loucos passando etc etc. Era coisa de minerador estar ali, abrindo essa brecha. Mas talvez não tivéssemos plena consciência disso: estávamos ali porque nos foi natural: queríamos um canto para continuar com certas leituras – eu tinha traduzido o ensaio ‘Projective verse’, de Charles Olson, e começava a ler Michael McClure, mas juntos começamos por ler a Rimbaud e depois outros malditos e esquecidos: houve um pouco de Blake, um pouco de Artaud, algo de Breton e surrealistas, Kerouac mais que outros beats (Ferlinghetti e só depois Ginsberg, daí o que encontrávamos); Herberto Helder; Cláudio Willer e Roberto Piva; John Fante; e cada nome levava a outro e então acabamos por ler muito mais do que esses citados, mas em escala menor. Dentre nós, alguns tinham bastante interesse por cinema, outros por fotografia, outros por pintura. Tudo passava por ali, de maneira que é quase impossível listar o que atravessava aquela praça e conversas antes e depois, visto que cada qual tinha suas referências muito bem definidas. O que líamos e compartilhávamos ali era uma espécie de lugar comum a todos, e quase que aleatório, uma questão de disponibilidade.

A princípio, estávamos na praça Edgard Neto, Giovane Brito e eu, querino. Iara Barberena já andava por ali. Micael também. Luis Mathias voltava pra cidade. Caio Resende, que conheci através de uma amiga em comum, achava ser o único interessado em poesia por essas bandas. Convidei a Pablo Luz, a quem conheci poucos anos antes, através de vários acasos (quando começou a tocar numa banda, Voyant o nome, para a qual escrevi umas letras e músicas; quando já ouvíamos falar a respeito um do outro através de pessoas próximas). Ian C.lima era colega de graduação. Campo Santo Leituga já era bastante conhecido na cidade, sendo expulso diversas vezes de tantos lugares por declamar uns poemas. Caroline Coelho e Babi estavam sempre de passagem, e outros tantos sempre presentes, claro (havia sempre o mais variado tipo de gente por perto, ora observando ora participando). Tanto Morgana quanto Giselli Moreira e Linauro Neto aparecem mais em idas à Lagoa das Bateias e durante as leituras que fazíamos em um teatro de arena próximo à praça, quando descobrimos que todos, alguns mais outros menos, ou pelo menos esses citados, escreviam ou fotografavam já com alguma seriedade no trato. Frank Morais, também colega de graduação, freqüentava com mais afinco a casa de Platini. Diego Oliveira vai se achegando nesse período entre lagoa e teatro, e sua música só vai crescendo em influência sobre tudo.

……………………………………………………………………………………………….Pois a inocência só é bela
…………………………………………………………………………………………………….quando não há nada para além do
………………………………………………………………………………………………………………………..momento,
………………………………………………………………………………………..quando os corpos povoados de presença
………………………………………………………………………………………………………reinventam a própria pele na orgia;
…………………………………………………………………………………………………………..outra maneira de sentir,
………………………………………………………………………………………………………uma outra maneira do sentir:
………………………………………………………………(na praça da pedra, arespeinto do candeeirocafe – tertúlia,
………………………………………………………………caio Resende, frank morais, querino)

Ao comentar sobre os processos criativos que envolvem, de alguma maneira, as pessoas que compõem o que hoje se torna conhecido como candeeirocafe (e esse é apenas um termo genérico, visto que nunca houve a intenção de montar um coletivo ou qualquer coisa relacionada, sendo o nome apenas por conta de um blog em que compartilhamos esses nossos escritos de luz e grafite), talvez seja necessário comentar algo sobre ‘escrita automática’ ou sobre ‘composition by field’ ou sobre ‘fluxo de energia’ ou, quem sabe, sobre a coisa de não se comprometer com a chatice de certos padrões que tanto a academia quanto a crítica impõe ao ato criativo, insistindo sempre numa bíblia de cotovelo. Talvez seja necessário, talvez e apenas por uma questão de referência, visto que a coisa tornou-se bastante natural, sem pensar antes nessas questões, senão apenas em querer chegar; mas onde?

Lembro a primeira vez em que o fato se deu, de escrevermos juntos. Estávamos alguns na casa de Platini, vendo fotos de uma viagem recente ao chapadão, até que a noite se estende, e algumas pessoas estavam indo embora, e ficávamos uns poucos por ali, ouvindo música ou fumando um cigarro, ou porque não havia muito mais o que fazer. Era já costume essa liberdade naquela casa. Era ponto de encontro, de passagem. Tinha uma mesa de sinuca no meio da sala!, e sempre um conhaque ou alguém pra fazer um café ou, enfim. Havia ainda cama ou colchão por demais. Sem problemas ficar mais um pouco. Sei que tocava um Bob Dylan, e em meu canto eu rascunhava algo. Pablo Luz também escrevia algo. Ian C.lima caminhava e fazia uns movimentos de satisfação enquanto escrevia. O dono da casa talvez estivesse beiçando em algum lugar. Havia mais pessoas por ali, mas à meia-luz quem tem certeza. Sussurros por todo lado. Sobre quantos cafés desperdiçamos foi escrito dessa maneira, quando alguém teve curiosidade em saber o que o outro tanto escrevia e, ao fim, eram aqueles rascunhos que fazíamos uma mesma história. Beirava o arrebol quando deixamos sobre a mesa de sinuca, também, os manuscritos de exercício #1 e (chegando a ser dia). Três poemas completamente diferentes entre si, tanto em argumento quanto na estrutura, escritos por pessoas de personalidade igualmente distintas, e sem mais nem menos, no tempo de umas poucas horas. Sabíamos que algo tinha acontecido, ficou aquela sensação de traquinagem ou descoberta. Amanhecemos num restaurante qualquer por perto tentando entender a situação. Em alguns dias, faríamos uma leitura num teatro de arena próximo à praça da pedra.

n’Arena, eis como nomeávamos entre nós essas leituras que começamos a fazer com certa frequência. Não seria a primeira. Poucos meses antes, sim, fizemos uns convites, foram algumas pessoas, mas nem todos ficaram até o final: lembro ter visto a maioria sair enquanto alguém lia uns anúncios de puta que Giovanne Brito recolhera numa viagem recente a São Paulo. Uns dois dias antes, aquilo tinha sido declamado em frente a uma igreja, enquanto o pastor lá dentro gritava Aleluia. Cheguei depois do ocorrido, mas é impossível ainda hoje passar em frente a uma igreja e não imaginar aquelas vozes de Edgard Neto ou Campo Santo Leituga ou não sei quem mais estava presente declamando: “Tammy japa mestiça”, o pastor respondendo: “Aleluia”, então segue: “23ª rainha do anal”, “Aleluia, pai!”, “especialidade: anal giratório”, “glória a deus!!!”, “e ainda beija na boca”, “amém, igreja?”. Sim, ao final, ficaram poucos nessa leitura, e fomos ao Viela depois, um bar bastante freqüentado ainda. La notte foi escrito na manhã seguinte, e é escrita automática ou, melhor dizendo, jorro. Encontrei Ian C.lima na lagoa semanas depois, tinha escrito Leve, também no jorro; e Caio Resende aparece mais ou menos durante o mesmo período com Dora Moon, cujo primeiro impulso foi através de escrita automática até que, enfim, um jorro.

Recebo uma carta de Ian C.lima pouco depois dessa primeira leitura após o ocorrido na casa de Platini. A carta é enviada também a Pablo Luz e trata sobre o que pode ser entendido como uma teoria das presenças. Segue trecho:

(…)
dentro das impressões que a noite de hoje me deixou, te digo que eu posso ter descoberto algo que talvez seja o verdadeiro prazer da minha vida: (…)

percebi que as presenças trazem com elas uma carga intensa e que algumas delas se tornam especiais por me transmitirem algo que não consigo decifrar. não pense apenas em prazer: é um alento, um ânimo à vida, um alimento à vida. hoje pude perceber o quão isso pode ser voluptuoso; forte mesmo, ativo. (…) esse estado é o em que me acho mais conectado ao sentido da vida. (…) a valorização disso é a manutenção desse estado que provocará em muitos a sensação de quietude e internalização. (…)

agora a escrita não é senão um meio.(…)

 

“agora a escrita não é senão um meio”: não tem como ser mais claro. A brincadeira, se é que alguma vez a coisa foi encarada dessa maneira, tornava-se perigosa demais, séria o bastante para voltarmos. Pelo menos naquele momento. Blanchot, em ‘a parte do fogo’, cita Breton:

“Mais uma vez, tudo o que sabemos é que somos dotados, até certo grau, da palavra e que, por ela, algo de grande e obscuro tende a se expressar imperiosamente através de nós… É uma ordem que recebemos definitivamente e que nunca tivemos tempo de discutir… Escrever, quero dizer escrever dificilmente, e não para seduzir, e não no sentido comum, para viver, e sim pelo menos para se bastar moralmente, e por não poder ficar surdo a um apelo singular e infatigável, escrever assim não é brincar nem enganar, que eu saiba.”

(Reflexões sobre Surrealismo, em A Parte do fogo – Ed. Rocco)

Penso ainda em um ensaio em que Cortázar diz:

Escrevo por incapacidade, por descolocação; e como escrevo num interstício, estou sempre propondo que outros procurem os seus e por eles olhem o jardim onde as árvores têm frutos que são, naturalmente, pedras preciosas.

(do sentimento de não estar totalmente, em A volta ao dia em 80 mundos – Ed. Civilização Brasileira)

ou quando, por repetidas vezes, ele afirma que literatura (as artes, em geral) é um jogo bastante perigoso, o mais sério de todos. Bolaño também diz:

¿Entonces qué es una escritura de calidad? Pues lo que siempre ha sido: saber meter la cabeza en lo oscuro, saber saltar al vacío, saber que la literatura básicamente es un oficio peligroso. Correr por el borde del precipicio: a un lado el abismo sin fondo y al otro lado las caras que uno quiere, las sonrientes caras que uno quiere, y los libros, y los amigos, y la comida. Y aceptar esa evidencia aunque a veces nos pese más que la losa que cubre los restos de todos los escritores muertos. La literatura, como diría una folclórica andaluza, es un peligro.

(disponível na internet, em: http://goo.gl/Vs8vb)

Esse salto no vazio não é sem conseqüências, é coisa de corpo. Houve dissensões com o tempo. Tudo bem, nunca se pretendeu construir um programa ou manifesto a partir dessas movimentações. A tal carta ainda diz:

estou pensando em como vai ser daqui pra frente, embora não queira pensar, porque apenas é. o que preciso de fora pra dentro é esse ser, e quem fizer parte disso não precisa estar ciente ou talvez seja necessário que não esteja.

De qualquer maneira, é possível tirar uma poética disso, esse ser: apenas ser. “As coisas não se justificam, apenas são”, é o que diz outro poema. Agnosia? Não sei por que a palavra salta agora, não sei o que isso diz. Observo, tateio: sinto, conheço; e ainda não sei o que isso diz, o lugar por onde caminho nesse instante, o que está ao alcance do jeito que for, que salta junto à palavra no momento da escrita, ou não importa que material seja, mas que se coloca ali, sabe se colocar, por necessidade ou – não, a palavra é bem essa: necessidade. É conhecer através de não-conhecer. Michael McClure chega a afirmar que poesia é o produto da carne tocando a experiência. A escrita não é senão um meio. Vai ver, é por aí que a coisa se dá, e talvez esses escritos de luz e grafite do pessoal que atravessa a coisa do candeeirocafe sejam entendidos, em toda a sua plenitude, se considerado essa conversa.

E não há qualquer transcendência em tudo isso.