porvir

 

Eis que surge entre as rochas
a face mal dormida dele
insinuando qualquer lugar
naquele lugar silente
de uma Pré-Existência

Olhai ali, vê todo aquele sangue
borbulhando quente ainda
por todos os espaços?
Teu sangue e de mais que dúzia
de linces famintas
cada uma com duas ou três línguas,
e em cada olhar descobre-se
exuberantes lagos profundos
Regozija-te ali, enquanto
agulhas muito finas penetram
ombros, pernas e virilha
(mas os gritos são dos fantasmas
que não desistem
e ainda assim, tua sede felina
guia por labirintos perfumados)
Ah, essa tua meia-máscara do riso!
O que preferes agora?
Uma Medusa com beijos agridoces
na boca de cada uma das serpentes?

Olhai agora! Teus olhos reviram
e remexem pela nuca
o tecido que dissolve coberto
por uma areia de composição rara
Tentas desviar o foco aos grãos dispersos
mas tomado por hipnose
tens um tapete gigante inquieto
e parede em blocos de marfim
que levemente pressionam
os círculos que se encharcam
— uma Alquimia natural
entre o que está vivo
e o que está morto
o que está morto e o que está
livre.


E olha só, aquela casa vazia!

O eco a tremer as estruturas
O distúrbio de não querer ouvir
senão a própria voz variada
Todos aqueles insetos desorganizados
procurando sentido nos cantos
alimentando em uníssono
uma bolha imensa
que envolve num líquido graxo
A calma, inquietude e
outros movimentos involuntários

Antes que tal face
continuasse absurda
fui empurrado. Sem apoio.


Deslizei por uma massa aquosa rosada,
senti as veias circularem:
Todos os erros propositais
e nas injúrias históricas:
Caí em transe num tal banheiro
e ainda em transe vi
dedos frágeis confiarem-me o Tempo

TUDO ESCURO

e de repente saindo como dum tubo:
Eu, sentado perante as Percepções

e vi então, o que aquela face amigável anunciava:
Várias merluzas fulminantes
paixões à milanesa
Syd Barrett, se não me engano
e nenhum temor mortal.

………………………Era assim, o porvir.

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