Dora moon, posfácio

o que talvez seria uma carta é o trecho final do volume de poemas Dora moon, de caio resende.

 

“Eis que já não sou o que lhe digo — esse conhaque,
essa fome, Coltrane pela madrugada —
somando ao mistério de todas as cartas (…)”  

…….Eu não saberia em que lugar estive naquela quinta à noite, o céu cinza-de-cigarro fosse talvez abril, minha voz áspera para tudo aquilo de vocês — a alma torta escrevendo errado por vidas igualmente tortas, no que hoje, ouvindo Joy Division, não posso ainda compreender. Fomos abismos decerto, e aqui você não tem um nome, é só presença e voz e pele por todo caminho em que me perco nesta hora. E me lembro de você, meu caro, como um daqueles detidos pegando um desvio a caminho de Nova York, segurando um pouco daquele cinturão e, mais adiante, com um conhaque, empurrando uma hora a mais para dentro e para fora. Ou depois, com uma de suas mãos levada ao sóbrio ombro de alguém, derramando seus versos tempo adentro na madrugada. Eu tive essa visão muitas vezes. De você numa sacada, tomado pelo vinho, caminhando absurdamente num telhado, falando ao telefone. Naquelora, quem sabe?, quisesse só dizer talvez, my darlin, ou talvez fosse só o que era, sem nome, sua vontade numa noite que fosse de domingo — eu não saberia. E quebraríamos o protocolo, arriscaríamos o salto, estaríamos bêbados — estávamos bêbados! —, estamos bêbados aqui. O sonho já não era uma parede, arranhamos o espelho, e agora o mar [ …….ausência …….]

Eu estaria numa alameda também, mas falando sobre tudo ………………………………………….sobre o que não
e talvez você me dizendo

:
Te guardo neste espaço de coruja
pela noite
E nunca estive em teus olhos
Seja o que for
seja dor e sorriso
Eu nunca estive em tua paz
:

Ponto: falávamos de putas, young men, e a sua voz só arranhava a sua voz de glória pisando uma sombra… Sua voz também abismal, sua voz igualmente serena, sua voz era um disparo

…agora o silêncio…

Que mistério arde nessas cartas? A minha calma em falar de tudo isso não busca nomes e verdades — nem uma história ela busca —, somente o caso de nossas fugas, e você naquela varanda, na alameda, você na praça, no teatro, figurando antigos retratos daquilo que pode ter sido de fato nosso (e inda é), você não sabe, como eu, e só sente “sê” sendo. Era isso: em algum ponto fomos maiores que nós mesmos de termos nos dado ao que o corpo pôde. Em algum ponto fomos bichos, inexorável[mente], pois em algum ponto nada foi maior do que estar exatamente naquilo, mastigados de presenças, a alma-breu ………………………………………….o corpo-chama!

E você com seus versos tão sagrados, e você com sua idade tão formal, e você me colocando nisso, e você tomado de ausência e segredo, e você, Dora Moon, e você sob o véu duma santa… Eu poderia dizer, poderia falar, ser claro, mas é impossível, vez que aqui, nesse lugar, não há o que ser dito… Eu, naquela praça Hercílio Lima, dono dessa risada que se só cresce, eu não entendendo nada de nós mesmos. Mas tendo só uma prece, sigo:

O cavalo sangra
à noite de absinto
Com os meus olhos encharcados
o que vejo é nada
E nado no mar de nossas veias
nado no mar de nossas veias
à correnteza de um passado que só é
pois todo passado é como um nó
em nossas veias:

Aqui agora

O cavalo sangra
à noite de absinto

E nunca seremos piedosos
A noite é o mar em nossas veias
Nunca seremos piedosos
A noite é o nó de nossas veias

) É hora

…………………Bato a porta

……………………………………Estou correndo

………………………………………………………E o Mar (

…É agora o silêncio…

“Meu coração bate teu, e isso é foda!”

…………………………………………………………………………………………………..Porque eu sinto esse rosto que não é mais daqueles dias, e sei do sentido que tomamos, mesmo tão pouco. Havia uma direção — eu sei — que nos percorria a todos. E vocês eram inteiros, a retalhos e bordas, numa orgia flutuante de nossas próprias vidas. Eu queria ser bem claro quanto a isso, dizer precisamente, mas os encontros continuam, e já não somos daqueles dias de extremo alvoroço pelas tardes de cafeína. E mesmo essa carta, como um passado que é sempre no presente, inda não é. Não pode ser. Não queremos que seja

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