leve

como um grande choro
as intenções aberrantes
vão se sacrificando pela grande onda noturna que marola perfurando em gotículas de chuvisco
ideal por sobre as cabeças dos poetas exaltados

mamãe diz:
não me venha não cadencie
não automatize, meu filho:
e essa escrita que vem agora de sua mão trêmula que permite meus olhos se encherem de
água por saber que te perco mais e mais e mais?

deixe-me cantar mamãe, apenas coloque o vinil onde o achou
saiba que o preto que fortifica esse disco é como essa minha auréola de água noturna
toda vez que alguém a manipula, mesmo por um pouco: é hora da explosão
excelente da vez:
não queria desesperá-la enquanto o homem de
voz gravíssima canta despreocupadamente mesmo, aí na sua mão antes de você o guardar
é o que acontece com esse agora
que por pouco ainda, ainda pelo tempo que for, sabe ser bem esmagador

e ainda uma outra coisa é
que não essa do quarto inerte apesar de estarmos aqui e
apesar de eu ouvir a sua voz baixa que não me dá uma compreensão plena
embora eu queira a compreensão plena do som rouco deslizando num arcoíris minúsculo
como a capa desse disco que você segura ou
como o fundo da garrafa de um gênio engasgado pela pequenas andorinhas que entraram
….esvoaçando e enxameando a garrafa quando aberta pela onda noturna que passou por aí

não sei claro mas não é escuro não é apenas noite
é ainda o crepúsculo que parece ser o da minha juventude nociva de seus desejos ingênuos

coisa pouca de imaginar
para se completar com chuva
e um torrencial de águas mornas vindo alagar toda a ciranda das vidas
todas as mandíbulas rasas onde a luxúria vem matar a fome
nos sorrisos de quem aqui não está em frente a você
mas está de lado a mim
e permanece sendo observado de um desfigurado prisma como um espectro afiado por todos
os nossos lances produtivos
sendo re-inspecionados numa renovação oblíqua de brilho fulgurante
criando um manancial de repouso
e criando enormes montanhas de música que emergem, que emergem, que emergem
e criando espaços transpassantes
intercalando nós todos num bom mundo
é por isso que estou vivo, não é?
foi por isso que concebemos as vidas
é por isso que ainda nos curvamos e vivemos sob conjunções sóbrias
sob conspirações regidas pela vibração de mentes sãs
sob convenções fétidas

e como me pedir para parar?
é só ir resistindo nessa onda até o limite em que se vai afundando
cada vez mais para dentro da sua cabeça
e cada vez mais para dentro vamos sabendo o que há

são os poetas que descobrem mais desse fundo?
por isso que poetas morrem cedo, mãe?
você chora para fora do sonho todas as minhas fraquezas expostas
não é isso que deve ser
a realidade da vida é como a realidade que atinge a fumaça do cigarro de quem pinta
o surrealismo:
a fumaça nunca vai ser aquilo que o pintor acha que é

você, mãe
até você vai ver
o que você vai ver na fumaça?
ah, não se preocupe, seu coração ainda bate apesar de você nunca o ter visto
(sente o jorro?)

e vamos mudando nossos caminhos pegando estradas diferentes
e vem à boca um gosto amargo enquanto o desespero toma conta

quando a rotina morder bem forte seu calcanhar
quando não tentar mais chegar os olhos à ponta da corrente
e quiser deitar a cruz da morte pela garganta
e sonhar que morri
ou ainda sonhar que não dormirei sem todos os vinhos que esses trocados oriundos
de um charmoso encanto sobre uma senhora puderam comprar
(será que o amor pode nos separar?)
e que uma amiga na esquina
uma linda mexicana de lábios carnudos
vai derramar beijos adentro todo esse
néctar de amor ébrio:
somos todos espalhados, vamos nadando

sabe a colher que navega pelo café e açúcar?
que adoça a sua boca e vida diária?
e o doce, a cor das manhãs?
eu estou ali também
estou com você
e você teima em rezar para que não pare
não é estranho rezar para que em mim algo pare e algo não?
reze pela esquina hoje
e a dinâmica madrugada do automatismo
a incoercível cama de quarto bem sujo
que todos se rendem
os cabelos suados e ainda assim ocultando inocentemente as pálpebras alegres
minha cabeça resistindo à pressão do meu corpo
ainda encobrindo minha lábia mais forte aos lábios mais macios
que me aperta numa contração volumosa e musical
vou perder a cabeça
é só pô-la para fora do decote dessa vigília parca
pois aqui se costumam ser messianicamente críticos
lastimavelmente variáveis e freudianicamente pífios
a beleza anda descansada de não mais se notá-la
a altitude não recebe bons respiradores
verdes e ventos cercam o xamã
o jaguar
tudo preciso se há o xamanismo
e quase tudo que preciso há em seu toque

como não somos deuses conscientes
vamos abandonar essa viagem toda para poder sacudir o
corpo sem provar de seus componentes etéreos

o som de um rádio procura lugar no coração da multidão
enquanto olho a vida pelas inconstâncias de um quarto estranho
me afogando no começo de tudo
será que sempre tem que ser mais?
será que sempre tem que ser mais?
quando você olha para a vida
decifrando cicatrizes
que olhos azuis resplandecem
que lá fora procuram todas as vias para então
serem completadas de um abraço nostálgico
pelas vias mais tortas
ou pelos riscos mais lineares
ou pelos riscos que correm menos perigosos
ou pelos complexos que eu não me importo mais
(assisto eles caírem como pedras de inverno no peito de controladores
sem ao menos serem notadas pelas colheres de café)
vocês não sabem se estão certos?

eu não me importo mais, eu não desvio suspiros
para quem apenas marcha por quem controla

não mais

mas é assim que segue a vida:
ainda há quem acorde e perceba que nenhum controle consegue ser tão remoto
capaz de alimentar a alma e deixar a liberdade ser

quase como você mãe, e eu a amo
agora guarde o disco
sente-se comigo fora desse automatismo divertido
numa varanda branca e calma
como o futuro dos seus cabelos tão algodão
não, não vou te enganar
aqui a poesia não bate
só um pouco, como bate no meu rosto
seu ar de café das manhãs que é o alento da minha vida

o som de um rádio procura lugar no coração da multidão
mas não se preocupe mãe, o amor irá nos despedaçar de novo.

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