travesti

Deitado no asfalto sob um sol a pino,
eu explodia no pretérito da saudade
fatias de minha cabeça,
lágrimas engravatadas no pescoço 
minha alma de asfalto
veste formas-próximas
do que queres de mim.

Eu sou o travesti:
o vazio, o silêncio
vivendo no lugar onde nunca existi!
Virgem Maria da Rio-Bahia,
mulher que não é mãe,
com asas, seios fartos e pau erguido
salto pelas ruas de minha alma!

Escarlate céu de minha ilusão,
rutilantes mundos,
velhas putas fumam na lata
uma chuva de sangue no quintal do moribundo,
e os urubus vagueiam na escuridão. Soube.
Sim, eu soube que aqui só havia noite.
Quem sou eu aqui?
Sou o travesti.

Que queres tu de mim?

Comments are closed.