dois poemas após uma conversa qualquer

foram escritos ali, na alameda que dá pra pracinha dos acarajés, durante uma tarde de sábado talvez, enquanto a conversa era sobre qualquer coisa entre o que os poemas dizem. quer dizer, na prática, os poemas foram escritos, cada qual, dentro da realidade de vida de cada um, com o resquício de tudo, horas ou dias depois. não são exatamente transcrições, mas entendimentos.

 

Serendipite
por caio resende

Sol chato na face. Uma tarde em nós.
Nenhuma promessa a ser cumprida
como o alívio da vida que escolhemos.
O dia para nós, naquela conversa
em que tentávamos mirar alguma sombra,
quem sabe, de um pensamento, descrevia
em nossas órbitas um velho desejo do homem.

E quando sentíamos solidão
era exatamente estarmos suspensos
pelas cordas sem lei de algum instrumento
que mal tocamos e que hoje, sabemos, jaz esquecido,
sem possibilidade sequer de uma corda,
mais a poeira de passados e pessoas que atravessamos
e um uivo suprimido de alguma nossa expressão.

Nas tardes estivemos mais feios,
nas tardes sustenidas de verão,
em que, com cigarros que nunca fumei,
cogitávamos nuvens sem saber
aonde. Iríamos dar de cara com algum poema?
Mas então a pergunta era outra; e era só isso
enquanto tencionávamos, com palidez, o cinza oblíquo da razão,
para chegar ao ponto sublime em que estaríamos verdadeiramente cegos,
cegos como a escura direção de um morcego,
cegos, devidamente cegos,
exatamente cegos,
como o sol que nos molhava e acolhia com seu raio
que naquela dita altura era quase como o frio.

Consumados feito dois, e os mundos e muros em nossa volta e em nossa lida,
que sequer deixariam sua marca no retrato tardio de algum soneto,
nessa tarde bandida que nos migrou
da demanda para a alameda e depois para estarmos
perdidos, enfim perdidos sem saber o que dizer e sem onde ir,
cansou nossas feridas dentro de um papo cabeça,
para depois tornar-se em nada,
irreversivelmente nada
dentro do universo de todas as tardes por que já passamos.

E ver que nossos dias são fadados ao desespero alegre e necessário
de sermos ponte quando tudo em volta é moradia,
de sermos disformes enquanto em torno tudo é dado em código,
talvez faça do mundo a saudade que sentimos do que nunca nos foi celebrado.
E talvez também por isso estejamos engendrados no burel de algum
nosso segredo escutando os discos mais antigos
enquanto outros dançam,
pulsantes e lisérgicos, as canções de luto e promessas do amanhã.
E fazemos poesia porque antes fomos frutos mastigados ao ventre dela,
porque sem ela seríamos mesmo nada, lanternas tristes a deslizar
no espelho noturno dos rios,
como que estendendo aos namorados,
num brilho sem cor, um sopro mais de uma luz sem paixão.
E porque se estendia por nossas peles, para tomar o nosso fôlego, o vazio entre as estrofes,
desistimos da vaidade de sermos tão precários como a voz de uma estrela,
sim, como uma estrela, e como a voz ausente de uma estrela,
porque as estrelas nunca serão sequer tocadas,
senão por nomes de amadas ou de fatídicos apaixonados por estrelas.
E escolhemos o chão real para caminhar com nossos pés e entendemos que o outro é
o esporro encarnado de tantos outros que um só nome seria negar a imensidão!

Como num vago corpo de memória, deslizamos os nossos dedos,
a saber o que não era, pelo hirtos do amor,
e pressentimos a vulva amada como, ao calor, uma tarde de verão,
e a saber também rogamos por engano, talvez, a seriedade,
e nada disso nos faz melhor.

E nada disso nos piora.
E tudo isso nos modifica,
como tudo que em nós é resulta e hirtos e desejo também.

Não existe mais hiato. Entre chagas e euforias, tudo se faz necessário.

 

(um outro lado)
por querino

que palavras são essas de noite e cigarros,
de vontades que atravessam
em conversas sobre qualquer besteira
de todos aqui? compreendo muito pouco
nossas despedidas, nossos encontros
de terraço e luz à beira da superfície,
a cidade inteira no recorte dos prédios adiante,
quase contra nós, nos entregando despudoradamente
na pele de amantes por demais cansados do excesso de cor
dessas ruas cheias de imagem. eis o julgamento:
teu corpo já não te ‘guenta, tua força é o de menos em tudo isso.
que se foda!, quero mais que tudo se acabe numa tarde de domingo e vinho tinto,
a manhã em branco e preto (e seus cabelos vermelhos, sua raça de fogo).

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