alguma poesia

caio resende, a propósito de uma conversa com edgard neto

…………sempre estive explorando a potência do “falso”, inventando lugares, intercampos, rachaduras. nós mesmos inventamos nossa mitologia e, quando há algum acerto, abrimo-nos, no máximo, para o que vem depois. um bom exercício de vida, sobre o qual me deito: que verdade seria maior que a não-verdade da vida? é essa força que agita a minha poesia, talvez seja isso o nome “caio”: algo que não pertence, mas que, seguindo a maneira de um paradoxo, flui e, numa só vez, fica e é de tudo. minha poesia, em nenhum momento, poderá ser considerada um saber de essência, uma busca profunda de um “Eu” ainda mais profundo ou de uma acalentadora verdade sumária, de uma realidade outra ou maior. antes, sou um contador de estórias, não como um aflito que busca o doce em detrimento do amargo para, por fim, separá-los por alcunhas como “bom” ou “ruim” em si, mas sim como uma grande cortesã a abrir os braços (e por vezes as próprias pernas) e a gritar que é boa a vida no que ela tem de mais incerto. quando deito os meus versos sobre o mundo, guardo a imagem de uma figura qualquer, um homem, talvez uma mulher ou um bicho sempre passando e esbarrando nas coisas. não, eu não as julgo, somente as sinto, e havendo vida, grito que há vida, e essa vida que me atravessa se expressa também através do meu corpo. quanto as coisas, eu as como e sou por elas comido; engravido o mundo e por ele me engravido; sofro das dores de um parto, da ausência inesperada de um filho, morro também, sou trucidado, queimado, acariciado, mas nasço. sou todo nascimento. e todo acontecimento é uma mão estendida diante de mim. é a isso que a minha poesia serve, é ela também uma mão estendida, uma janela, uma abertura, mais ainda: doses de conhaque apitando no estômago da sobriedade. eis a maior forma da minha ocupação: abrir frestas onde antes tudo era lei.
…………mas é com frequência que, na leitura de meus poemas, se tente encontrar um rastro perfeito de uma dada realidade-experiência, de um acontecimento, e que nessa busca, não obstante, com maior frequência, se encontre, ao invés de concordança, um breve susto que se justifica, segundo o que penso, pela total falta de retrato do que posso referir como minha poética. os meus poemas não são meros recortes de uma realidade-objeto, não são um relato, ao contrário disso, eles fluem e se firmam num fluxo subjetivo de imagens, cheiros, ruídos, gostos, tons e sensações que, embora tenham total concordança com a experiência-gatilho da realidade-objeto que se gerou, tendem à desapropriação dos elementos de uma experiência. isso implica em dizer que os objetos e fatos do que chamo de memória-cena e até mesmo a realidade-objeto se mostram depois e se misturam em vibrações quasesútis que vão sendo delineadas a cada estrofe ou a cada verso. dessa forma, os mitos de um poema se misturam, se atravessam e se intensificam a ponto de, nesse trânsito, quase perderem a própria designação de seus nomes. aliás, minha mitologia não preza por nomes, é anterior a nomes, formas e anterior à minha própria voz. minha mitologia, antes de mais nada, valseia com o silêncio nas curvas estéreis do corpo. cada palavra é um entre e cada mito, em certa medida, perde o seu mestre.

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