uma teoria das presenças

carta de ian c.lima enviada a querino e pablo luz, escrita logo após um n’Arena1.



o meu quarto, amigo, ao voltar da nossa manifestação no teatro, é um pouco minguante. lembro dos versos de dos Anjos que parecem agora traduzir o que sinto e vejo aqui, sentado no quarto de frente à janela que espalha a lua:

…….Do observatório em que eu estou situado
…….A lua magra, quando a noite cresce,
…….Vista, através do vidro azul, parece
…….Um paralelepípedo quebrado!

por favor, leia isso ao som de decades do Joy Division. quero que tente sentir um pouco de meu sentimento. só leia se estiver com essa música. por favor, após repetir decades, pode seguir ouvindo o disco.

dentro das impressões que a noite de hoje me deixou, te digo que eu posso ter descoberto algo que talvez seja o verdadeiro prazer da minha vida: agora estou em lágrimas e só consigo pensar o quanto essa minha percepção vale pra mim e pensar em decades e sentir meus braços arrepiados.

percebi que as presenças trazem com elas uma carga intensa e que algumas delas se tornam especiais por me transmitir algo que não consigo decifrar. não pense apenas em prazer: é um alento, um ânimo à vida, um alimento à vida. hoje pude perceber o quão isso pode ser voluptuoso; forte mesmo, ativo. não é *** estar aqui, mas a presença do meu desejar que ela esteja, é a simples presença, em silêncio mesmo, da *** numa calçada, sentada à minha frente e se deixando levar pelos delírios de Joy Division que ela ativava nela própria, em sua cabeça. a simples presença da *** que foi ao teatro a meu pedido, mas eu não sei por que ela foi. e realmente não importa o motivo, o que importa é a sua presença, assim como importou a presença da Morgana sem eu nem conhecê-la mais do que ver passar. e é como se agora eu conseguisse decifrar todas as presenças, e a nostalgia vem pelas mais especiais. acredito que esse meu estado de agora me permite ter o que estou tendo: um silêncio, música, a lua da janela, essa viagem só minha. é penoso, mas compreensível eu não conseguir me exprimir com mais clareza sobre isso. esse estado é o em que me acho mais conectado ao sentido da vida, uma atenção a essas presenças deverá ser prioridade na minha vida. não sei por onde minha cabeça anda, assim como não sei de onde as especialidades das presenças vêm. Pablo e Charles foram extremamente ativados em mim, juntamente com outras presenças e imagens especiais nessa parte última desse semestre e mais ainda na parte última dessa semana. a valorização disso é a manutenção desse estado que provocará em muitos a sensação de quietude e internalização. estou pensando em como vai ser daqui pra frente, embora não queira pensar, porque apenas é. o que preciso de fora pra dentro é esse ser, e quem fizer parte disso não precisa estar ciente ou talvez seja necessário que não esteja. enfim, essa é uma noite alucinante e que me embala num alívio, num conforto em relação ao porvir. tantas coisas agora significam tão pouco, por exemplo: aquelas pessoas a conversar coisas que me davam nojo, na frente do teatro; ou as conjeturas e movimento para com pessoas a ir na praça ou não; ou se teremos dinheiro amanhã; se beijo ou não beijo aquela menina; se eu tento ou não transar hoje; se teremos tal ou tal presença. as presenças, com a preocupação de tê-las, não são excelentes. fazer o que achar que daria prazer – não um prazer que momentaneamente vem aquecer, mas um prazer de lapso no espaçotempo que nos renderá uma nostalgia –, isso deve mover e não a estima ou a posse.

as coisas simplesmente são, e quanto mais eu puder apenas observar, melhor. as coisas, assim, me proporcionam uma leveza que posso até sentir de uma forma quase nunca acontecida, o jorro da vida.

(doçura paira, ausência corrompe)

durmo tranqüilo agora, mais leve do que poderia imaginar.

agora, a escrita não é senão um meio. agora, o poema na casa de platz2, se essa noite fosse, ficaria em mim, como agora está um turbilhão e eu não transpasso para a folha. esse é este agora, é isso. e a vida deve ser o que sempre é, a todo momento, como se apenas observássemos.


notas

pouco antes desse encontro1 no teatro, naquela semana ainda ou na semana anterior, na casa de platini2, num jorro (referência muito evidente ao poema de Michael McClure, “O jorro”, que naquelas últimas semanas, na praça da pedra, tínhamos lido e relido), foram escritos alguns poemas coletivos – três poemas, exatamente: sobre quantos cafés desperdiçamos, exercício #1, (chegando a ser dia).

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