estrangeiro


Na estação, um mosaico de relógios sem ponteiros. Estirei as pernas, os pés perpendiculares aos degraus, assentados bem nas suas extremidades. No princípio senti frio. O corpo já acostumou. Tampouco tenho sentido sono. Se dormi não me apercebi disso. Só me lembro de sonhos. Porventura acordada – sonho e realidade miscíveis somente nesse estado.

O primeiro trem rompe a treva dos túneis, que cospem fumaça engasgados. Há quanto tempo estava ali? Faz tanto tempo. A gente às vezes sente essas coisas, qual saudade. Mas talvez fosse tarde, faz tanto tempo… Tarde para olhar seu rosto e perceber que (como Platão disse sobre os amantes) se parece com um deus em cujo altar já rezei. O segundo trem deve vir do lado de lá, oposto às montanhas. A planície é um só estender-se ao longe.

Aguardar um ruído esguio no horizonte: confluência trilho/céu. Esperar: a espera. Sem sede, frio ou fome. Estarei perdida? Insensível já, um torpor de morfina. Mormaço. Nunca estrelas no céu, um telhado de escuridão tosco. Iluminada a estação apenas por luzes artificiais características. Até o trem chegar (o som do atrito nos trilhos, um afago). Relógios sem ponteiros; mixórdia onírica. Até que: você. Tempo exíguo; fração de segundo e seu sorriso de uma inocência atroz.

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