essa é a cor da estação


, e as moças andando na orla com seus vestidos neons enquanto eu observo – aqui sentada com uma revista no colo – sombras que engendram espirais na areia; curvas que giram continuamente, afastando-se do ponto de onde tudo começou. Tive um presente, um esplendor, mas não sabia que era tempo presente. Eu nunca vivi o presente? E as sombras, móveis, fora e dentro de mim. Curvas girando abertas velocíssimas fora de mim – fechadas em mim. A cada momento seria necessário: ter o meu corpo, saber-me carne, sangue e pensamento – talvez calor também. Uma delicada forma de. Não, talvez intensa porque, veja, falei de carne, sangue e pensamento. É necessário ter-se a cada instante. E as sombras são móveis. E móveis as curvas e o girar e abrir-se delas. Pouco a pouco é fácil perder o presente e dele desintegrar-se, tornar posterior. Pouco a pouco eu perdia o presente e de tal maneira impercebível a perda que nem sei, dada a violenta necessidade de reter, quando foi presente, quando começou a ser passado, quando se tornou futuro indeciso, e quando começou a ser, lentamente, o arquivar-se do muito antes. As espirais, velocíssimas. Inútil a minha desesperada necessidade de viver, menos ainda a desesperada necessidade de ter-me, conhecer a mim, e através do tido e conhecido, existir: por onde andaria o meu processo de existir? por quais gavetas empoeiradas, por quais acúmulos de papéis, por quais fotografias, em que mãos?

Perdida em devaneios, procurava, desarrumava gavetas, procurava, voltada à casa da infância, subia ao sótão, eu, agora livre – assim pensava. Podendo voltar, subir e investigar sem que o mofo se colasse à pele, sem que fosse impossível. Perguntava a cada marca de giz de cera nos degraus da escada, ao tempo habitante das frinchas, a um filete de luz, para, por fim, mergulhar as mãos nas arcas fundas e misteriosas sem que, de repente, algo de lá saltando, pudesse acrescentar-se às minhas marcas. Procurei assim por toda parte sem encontrá-lo, as minhas lágrimas diziam menos ainda e poucos e ineficientes os meus gritos e lamentos, sabendo eu, no mesmo instante de assim gritar e lamentar, que não tinham fundamento algum, eu me conservava bem no fundo de algum recanto, escondida lá, tendo deixado sair uma pequena parte, pequeníssima parte que não dava, sozinha, para bastar-se, e era necessário, urgentemente necessário se tornava, achar qualquer prova que me tornasse existida através dela

, e as moças andando na orla com seus vestidos neons enquanto eu observo – aqui sentada com uma revista no colo – sombras que engendram espirais na areia; curvas que giram continuamente, afastando-se do ponto de onde tudo começou.

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