dora moon

com mãos para o mundo, andávamos calados.
os lábios já, de nós, gaguejavam a sede antiga:
tínhamos vida, Dora Moon, e a primavera não morria.
bastávamos e respirávamos algum lugar de nossa fuga.
tínhamos pele, eu levava alguns mortos,
junto, entre, um par furado de velhos sapatos.
ah! também um desejo dos olhos nos olhos teus.

)feiuras e risos deliquenciais, numa antiga esquina de nossa memória(
nossa filosofia era o desejo, e tu me estendia os braços
quando eu pregava no teu sono a nervura daquelas asas.

ERA ISSO

nonde a faca minha da mão pairava no teu seio, amargura,
este tambor de indecifráveis batidas,
era o samba das nossas línguas.
qual criatura, Dora, que transa pela terra
seus afetos de criatura, matar a fome tua
era a fome que eu tinha de deitar sob tuas falanges
a aflição das costas minhas.

E TU SÓ ME QUERIA NA AUSÊNCIA

preâmbulo do mundo que mesmo te fiz,
eu deitei aquele corpo meu nonde tu despiu a palavra
da treva ideal dos meus dicionários

– a que mal percebo, tu era desobrigada.
teu chalé na montanha era um peito que tive.

com mãos para o mundo ríamos calados,
grisalhos como o tempo de tudo: farpados arames do nada!

E o amor, Dora Moon, era DO NOSSO PECADO.

tinha eu partido a treva,
deculpado o choro que a vida me dera,
num abrir sigiloso dos meus poros.
com os olhos, a vida me chamara.
e tenho ouvido o som do mundo
como o fantasma de carne dum irmão parasita.

ERA ISSO

eu te tratei com os sintomas da minha urgência
e tão logo tu me tinha ceifado.
era o mar, eu, a prole que tu cuspiu à terra.
e os cristais dos teus venenos eram já excesso
ao prazer elástico dos meus pulmões.

inda tive uma batida para saber onde é que tu estava.
e fui me recompondo. Como, à sombra, a breve brasa dilatava
a possibilidade mais que real dum novo encontro com as chamas,
teus olhos me enxergavam com lentes de gato preto.

EU TIVE MEDO

medo de que o mundo fosse o mesmo.
medo da fadiga tua pousada sobre meus ombros
num abissal desejo de superfície,
medo do balão do teu espelho;
que tu me olhasse no fundo e deixasse vazio
o corpo, a calma e o poema. eu tive medo
dos cavalos marinhos plantados no mar do meu sonho,
das aves terrestres arrancando toda luz dos meus olhos,
do sol profundo gelando a minh’alma
num anseio que tive de suar com teu corpo!

e mesmo nada e mesmo tudo e mesmo as costas minhas
e mesmo a dor do mundo, mesmo a dor estrangeira do mundo
que gira num eixo depressivo a nos guiar para a morte de tudo
que vivemos nesses dias de nossa teimosia. e os sortilégios de
quebras esculpidas a fogo-fátuo na imponderável manhã de tuas coxas.
e as imagens frondosas da fauna do humano espírito:
a celeuma, o couro, o sangue, ah!, dos defuntos, a imensurável certeza da queda;
a crendice, o câncer, o mel, a insônia, a poeira, o emprego, a bola, a meta, a faca;
a doença, a gripe que curamos, o trocado que perdemos ao apostar na loteria, o orgasmo
que roubamos, a laranja que esprememos no seio do trovão. o grito, oh o grito!
esse ar que respiramos, esse tiro que matamos quando o amor restou no corpo.
e mesmo isso, essa sede, essa angústia tocada sem acordes pelas mãos de cabra
macho que encantou na tua face o semblante do menino.
e mesmo isso que não poderia referir o imenso apuro da nossa distância.
nada, nada – como uma estrela jogada sobre a brancura ainda mais branca de uma estrada –
conteve em nossas córneas o ruído dessa chuva.

era isso

porque que havia no teu rosto a deformidade minha do sangue – turvo de existir –,
também uma inexplicável ausência de lilases na estampa abrupta e sideral do teu vestido –
Dora, eu nem soube dizer o que mesmo era aquele ínfimo azul –
tínhamos brasa e frio QUANDO ME DESTE ESTE NOME;
e hoje que sou dois que sou mil que sou tantos, dizem a figura de um louco passando
como uma espécie de latido – não, melhor um uivo – no términus dessa avenida.

POESIA, Dora Moon, é que te chamam nessa vida

e os píncaros do teu templo são a soma e a subtração de quanto é tudo

era isso

poema, uma voz que se calasse, como bruma vencida pelos mistérios de uma vida.

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