documento 01


Certo dia, já tarde, perceberam que acostumaram a alargar as despedidas e com isso as noites e as manhãs. No quarto as persianas nunca estavam fechadas e ficava quase sempre quase tudo amarelado. Um amarelecer suave e umas notas doces pingando no agora: but the telephone is singin’, ringin’, it’s too early don’t pick it up, we don’t need to. O agora: laços tomados, calor dilatado, chocolate derretendo no céu da boca (toda a beleza dos começos ela quase havia esquecido); um filme cor de poeira – porém sublime -, aquele escritor genial, um samba de vitrola ou o rock ‘n’ roll de poucos anos atrás – as palavras pairavam sobre essas ocupações: plumas e despretensiosas. O olhar dele no vestido dela, nas unhas vermelhas, nas orelhas, na boca e nos cabelos. O olhar dela nas gotas de água nas costas e nos braços dele enquanto enchem o parapeito da janela com seus bons dias.

O agora cheio de agora: todo aquele barulho do lado de fora, os carros, as pessoas e seus destinos e crianças de uniforme atravessando a rua fora da faixa de segurança. Mas não lá, onde uma fresta de luz ilumina a estante, os livros, a cama e as coxas rimando fáceis:

eis um dos segredos contidos depois da escadaria.

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