dos delírios


Pela estrada ia rezando, lacrimejando um olho só, pedindo que o viço substituísse os vícios e que a dor saísse pelos dois olhos, fosse sentida dos dois lados. O correr de dias líquidos constantemente renovados em ininterrupto fluxo. Palavras entre fluídos: vida-água.

O sol ainda doura a estrada. A terra vermelha – acariciada pelos liames das cores primárias – manifesta-se alaranjada: vida-espetáculo. Segue o homem enquanto acontecimento, estudando o limite entre o sentir e o pensar, o terço nas mãos: impura sagração de transfigurações. Atribuindo valores a x e a y, o espaço e o tempo, respectivamente, que descortinariam o arcano. Esboçando a intuição que, até então, o cálculo havia guardado. Um invisível fio impelindo-o ao mundo das pertubações serenas.

E agora o jeito livre de pisar, a delicada superioridade de quem sabe tocar sem alterar os caminhos.

Em seus movimentos novos passos ensinados pelo silêncio. Não há adulteração em seu corpo apesar de, outrora, ter dilacerado membros e decomposto vísceras. A sua alegria é rir à criação de um mundo que sua devoção fez existir. Seu modo de seguir, como se estivesse habituado a recuperar membros danificados, erige um pensamento – sim, é amor e vocês não sabem – e uma tontura, lembrando-lhe rotação.

E, então, o êxtase! Enfim, os limites se entrecruzam, se confundem em uma zona de indistinção entre homem e pássaro, homem e borboleta, homem e rio. Caminhos abertos para a fluidez: vida-instante. De modo que, agora, pode delinear um leve sorriso, dominado pela compreensão e seus atributos.

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